terça-feira, 25 de abril de 2017

PLUTÃO NATAL NAS CASAS



Como Úrano e Neptuno, Plutão é outro princípio que impulsiona inexoravelmente a vida a seguir para a frente e a livrar-se de velhas formas para deixar espaço às novas. Assim como uma serpente, se despoja da sua pele, algo nos empurra a partir de dentro, do mais profundo; impele-nos a transcender as fases antigas e gastas da vida e nos indica o caminho que nos irá permitir seguir crescendo e evoluindo. Finalmente, o novo se converterá no velho, e também esse terá de ser abandonado para iniciar ainda uma nova fase.
Plutão e Neptuno em particular, ambos deuses do mundo subterrâneo, têm em comum algumas semelhanças, enquanto minam com ânimo subversivo os nossos antigos marcos de referência e nos obrigam a levantar as mãos e render-nos. De todas as maneiras, diferem de forma espetacular no modo de fazê-lo. Como as térmitas ou o caruncho que devoram os alicerces de uma casa, Neptuno dissolve lentamente a rigidez da antiga estrutura. Com Plutão, no entanto, o teto cai-nos em cima, esmagando-nos a cabeça com uma tonelada de ladrilhos. Mais cru que Neptuno, Plutão representa uma pressão crescente que gradualmente vai chegando ao seu auge, até que nos liquida. 
Enquanto que Neptuno nos engana para que mudemos, fazendo-nos sentir que nos podemos limpar e purificar através do sacrifício e do sofrimento, Plutão assegura-se de que renunciaremos ao velho aniquilando-o totalmente, até que nada fique. Com a sua exigência de que um ciclo termine e um novo comece, Plutão não nos deixa outra opção que não seja mudar ou morrer.
Um dos ditos mais antigos que consta, (Sylvia Brinton Perera relata belamente no seu livro The Descentato The Goddess) descreve com muita clareza como funciona Plutão numa Casa. Inanna é a deusa dos céus, vivaz, radiante e jubilosa. Ereshkigal, cujo nome significa as sombras, é sua irmã e vive no mundo subterrâneo e representa uma forma matriarcal e mais antiga de Plutão. O marido de Ereshkigal acaba de morrer e Inanna decide descer ao mundo subterrâneo para assistir ao seu funeral. Mas, em vez de receber com cordialidade a sua irmã, Ereshkigal saúda-a com um olhar sombrio e venenoso e submete Inanna ao mesmo tratamento que devem sofrer todas as almas quando entram no domínio de Ereshkigal. Há sete entradas ou portais que conduzem ao mundo subterrâneo e em cada um deles, todo o que o atravesse deve despojar-se de uma peça de roupa ou de uma joia. Inanna, principesca no seu decoro, deve ir retirando túnicas, capas, pedras preciosas no processo, de maneira que quando chega a ver-se frente à sua irmã, no mais profundo do mundo subterrâneo, encontra-se completamente nua diante dela. Por outras palavras: Plutão  (Ereshkigal) desnuda-nos das coisas com que nos temos adornado, das coisas mediante as quais temos construído o nosso sentimento de identidade. Embora seja uma experiência muito desagradável e degradante, o mito diz-nos que é esta uma força destrutiva que devemos respeitar e perante a qual  temos de nos curvar. Apesar de tudo, é a obra de uma deusa, de uma divindade que representa ou que serve um centro ou um poder superior de organização. É provável que a Casa onde se encontre Plutão seja o lugar onde tenhamos que enfrentar desta forma Ereshkigal - deusa das sombras, mas de qualquer forma, deusa - e render-lhe homenagem.
Ereshkigal então mata Inanna e pendura-a num gancho de carniceiro no mundo subterrâneo: lá fica apodrecendo a bela deusa dos céus, a de elevadas intenções. De modo semelhante, a Casa que habita Plutão é onde talvez tenhamos que lidar com o que está podre em nós. É neste domínio onde nos encontramos com os aspetos mais obscuros e indiferenciados da nossa natureza: com as paixões e as obsessões que nos sobrecarregam, com a nossa avidez de poder, com a nossa sensualidade bruta, os nossos ciúmes e a nossa inveja; com a nossa voracidade, o nosso ódio, a nossa cólera e selvagismo, e com as nossas feridas e as nossas dores mais primárias. Não podemos ser íntegros enquanto tudo isso não tenha sido trazido à superfície, transmutado e adequadamente reintegrado na psique.
Embora tudo isto soe desagradável, e com frequência o seja, devemos recordar que Plutão era também o deus dos tesouros escondidos e das riquezas ocultas. Através do choque que o  provoca, aquelas nossas partes que tínhamos desconhecido e desterrado ao inconsciente -e que estavam,, por fim, fora do nosso alcance- são reclamadas para voltar a pô-las à disposição e uso da consciência. Desta forma, voltamos a conectar-nos com a energia perdida e então, como resultado, ganhamos acesso a forças e recursos até então ignorados e inexplorados.
Inanna não fica para sempre presa no submundo. Sabendo que ia viajar para um lugar perigoso, tinha tomado as suas disposições para que a libertassem em caso de que se visse em dificuldades, uma vez lá em baixo. De modo semelhante, Plutão-Ereshkigal pode fazer-nos cozinhar no nosso próprio molho, mas devemos ter também o bom senso de não ficarmos presos somente no que a vida tem de abominável ou doloroso. Plutão esmaga-nos, mas como Inanna devemos retornar uma vez mais ao mundo de cima e ao funcionamento cotidiano da vida... esperemos que conhecendo-nos melhor a nós mesmos, com mais sabedoria e maior integridade.
Inanna escapa do mundo subterrâneo graças à ajuda de dois pequenos personagens andróginos. Pequenos e discretos, sem que ninguém  dê conta deslizam no submundo e aproximam-se de Ereshkigal, que por sua vez passa por grandes dores. Não só o marido morreu, mas também ela está grávida e o parto apresenta-se difícil. Por outras palavras: algo morreu, mas também algo está nascendo. Em vez de castigar Ereshkigal pela morte horrível de Inanna, as carpideiras aproximam-se dela o mais que podem e compadecem-se do seu estado. Numa espécie de terapia não diretiva como a de Rogers, dão-lhe margem para queixar-se e gritar, devolvendo-lhe a imagem do seu sofrimento e das suas dores. Às carpideiras ensinaram-lhes a afirmar a força vital mesmo quando esta se expresse pela miséria, a escuridão e o sofrimento. Ereshkigal fica tão grata por ser aceite desta maneira que lhes oferece qualquer coisa que desejem. Os andróginos pedem-lhe que ressuscite Inanna, e Ereshkigal cumpre com a sua palavra e a traz de novo à vida. Inanna regressa ao mundo de cima, transformada e renovada, trazendo consigo uma nova vida para as culturas e a vegetação. Ereshkigal-Plutão destrói a vida, mas também é capaz de criar uma nova.


Mapa Natal de Richard Nixon

Que podemos aprender na Casa de Plutão?
Primeiro, em vez de entender as dores e as crises como um estigma ou uma patologia, como algo mau que é necessário evitar a qualquer preço, podemos ver estas fases como partes de um processo mais amplo, que conduz à renovação e ao nascimento.
Em segundo lugar, descobrimos que não podemos dominar nem transformar aquilo que condenamos, negamos ou reprimimos... que é exatamente a forma em que, normalmente encaramos qualquer coisa que nos desagrade. Em vez disso, as "carpideiras" têm a chave: a atenção prestada a Ereshkigal-Plutão e a sua aceitação como parte da vida, permitem que atue a magia curativa.
Algo mais se ganha ao ser destruído, ao perder o que foi precioso e por efeito da desintegração daquilo que uma vez nos serviu como fonte de identidade e de vitalidade. Ao sermos despojados de tudo recordamo-nos que ainda está lá depois de nos terem removido todo o resto. No profundo de nós descobrimos algo que nos detém, mesmo apesar da perda das antigas amarras do ego. Este é o dom que voltamos a encontrar na casa de Plutão: o conhecimento de algo que há em nós e que é indestrutível. Plutão liberta o perdurável do que é meramente transitório, e então renascemos com o sentimento de estarmos vivos que é incondicional, não dependendo do mundo fenomenológico, exterior ou familiar que nos dispõe determinados.
Obviamente onde Plutão erige o seu altar na carta, não têm de ser considerados ao pé de letra os assuntos dessa casa. Aqui os temas são complexidade e fascinação. Nos domínios de Plutão temos de ir em busca de causas ocultas e motivações inconscientes e subjacentes. Ao ego isolado não o interessa supervisionar a sua própria destruição. Plutão é o lacaio de um nuclear próprio e mais profundo, que usa este planeta; para derrubar os limites do ego e deixar em liberdade uma maior parte de quem na realidade somos. Tal como o expressa Jung, Plutão vai aos extremos, e somos capazes de exibir tanto o pior como o melhor da natureza humana no setor da vida onde este planeta se encontra. Quando se põe em questão a omnipotência do ego, tememos a possibilidade de sermos destruídos: de acordo com isto, procuramos proteger-nos controlando, mesmo que seja ao preço da traição ou da crueldade, o que sucede na casa de Plutão. Sem sequer saber porquê, podemos ser arrastados a agir de maneira compulsiva e obsessiva. Ainda nessa mesma esfera, se reconhecemos uma força misteriosa, mais poderosa que nós mesmos e nos pomos ao seu serviço, temos a potencialidade para descobrir e mostrar a nossa maior força e a nossa nobreza, o nosso propósito e a nossa dedicação. Não só saímos significativamente alterados por o que sucede neste domínio, mas é também ali onde podemos atuar como catalisadores ou desencadeadores da transformação de outros. Nalguns casos, a mesma força que move a história pode apossar-se dos nativos para, por intermédio deles, poder operar no domínio de Plutão.
Quando Escorpião está na cúspide de uma casa, ou contido nela, a sua interpretação é semelhante à de Plutão neste mesmo posicionamento. A casa onde se encontra Plutão influenciará sobre qualquer casa onde esteja Escorpião. Por exemplo, o ex-presidente Nixon tinha Plutão na casa X e Escorpião na cúspide da III. Uma mentalidade furtiva, maquinadora e decidida (Escorpião na casa III) não se deteria ante nada para concretizar a sua carreira (Plutão na casa X) a sua necessidade obsessiva de poder e status, até produzir finalmente a sua própria destruição e o seu posterior renascimento.



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