domingo, 2 de setembro de 2012

A CASA 8




A Casa 8 tem muitas etiquetas. Como é a oposta à Casa 2, que é a casa dos "meus valores", a esta se chama geralmente a  "casa dos valores dos outros". Isto pode tornar-se num sentido bastante literal. Os signos e os planetas que existem nesta casa sugerem como vamos desde o ponto de vista financeiro no matrimónio, as heranças ou as sociedades de negócios. Por exemplo, Júpiter nesta casa pode fazer um casamento muito conveniente, receber de presente uma herança inesperada, esquivar-se alegremente aos impostos e encontrar bons sócios comerciais.
Por outro lado, quem tem um Saturno com mau aspeto na casa 8 pode casar-se com alguém que no dia seguinte se encontre falido, herdar as dívidas de algum parente, suportar alguma minuciosa investigação das finanças ou escolher uns sócios comerciais desastrosos.
Não é raro encontrar pessoas com muitos planetas na Casa 8, em carreiras onde estão em jogo dinheiros alheios - banqueiros, corretores de bolsa, analistas de investimentos e contabilistas.
No entanto, a Casa 8 é muito mais do que o mero dinheiro alheio. Descreve "aquilo que se comparte" e a forma em que nos fundimos e unimos com os outros. Enquanto elabora e expande o que começou na Casa 7, a Casa 8 é a essência das relações: o que sucede quando duas pessoas, cada uma delas, com o seu próprio temperamento, os seus recursos, o seu sistema de valores, as suas necessidades e o seu relógio biológico, tentam unir-se. O mais fácil é que surjam múltiplos conflitos:
Eu tenho algum dinheiro e tu tens o teu. "Como o gastamos?" "Quanto tentaremos poupar cada mês?"
ou
Gosto de fazer amor três vezes por semana, mas parece que tu necessitas dele todas as noites. "Quem ganha?"
ou
Tu crês que é necessário bater, mas eu insisto em que nenhum filho meu seja castigado. "Quem tem razão?"
O corredor destinado a encaminhá-los para o caminho da bem-aventurança conjugal parece ter-se convertido num sangrento campo de batalha e o que se vê mais para diante parece um cortejo fúnebre.
A Casa 8 associada naturalmente com Plutão e com Escorpião, é chamada também da "casa do sexo, da morte e da regeneração". No mito, Plutão -o deus da Morte- sequestra a virgem Perséfone e leva-a aos infernos. Ali se casa com ela e quando regressa ao mundo, Perséfone mudou e já não é mais uma menina, mas sim uma mulher. Relacionarmo-nos profundamente com outra pessoa leva consigo a uma espécie de morte, o libertar e a destruição das fronteiras do ego e da intrincada identidade. A morte enquanto "eu" separado leva-nos a renascer como "nós".
Como Perséfone, mediante a relação afundamo-nos num mundo desconhecido. No sexo e na intimidade descobrimos e compartilhamos partes de nós que normalmente se mantêm ocultas. O sexo pode ser considerado como uma mera libertação que temporariamente faz com que nos sintamos melhor, ou, mediante o ato sexual, podemos ter a experiência de uma forma de  nos auto transcender da união com outro ser. Nos picos do êxtase esquecemo-nos e abandonamo-nos de nós mesmos para nos fundirmos com o outro. Os Isabelinos referiam-se ao orgasmo como "a pequena morte". Boa parte da nossa natureza sexual revela-se nos posicionamentos da casa 8.
As relações são os catalisadores da mudança. A Casa 8 limpa e regenera, trazendo à superfície (geralmente pela via de uma relação atual) problemas que ficaram por resolver em relações anteriores, especialmente aqueles primeiros problemas de vinculação com a mãe ou com o pai. A primeira relação da nossa vida, a que tivemos com a mãe ou com alguém que a substituía, é a mais carregada, não sendo surpreendente, pois que a nossa sobrevivência depende dela. Todos nascemos neste mundo como vítimas potenciais: a menos que contemos com o amor e a proteção de alguém maior e mais hábil do que nós, as nossas possibilidades de sobrevivência são muito ténues.
A perda do amor de uma mãe não significa somente a perda de uma pessoa próxima a nós: poderá significar o abandono e a morte. Somos muitos os que seguimos projetando essas mesmas preocupações infantis nas nossas relações posteriores. O medo que o nosso cônjuge não nos continuará amando, ou que nos poderá atraiçoar, desencadeará ou voltará a despertar os medos primários da perda do objeto amoroso originário. Tem-se então a sensação que a sua sobrevivência depende da preservação da relação presente. Súplicas e clamores no estilo de "se me deixas morrerei" e "não posso viver sem ti" revelam a força das correntes subterrâneas, provenientes das iniciais dificuldades de relação, que se infiltram na realidade da situação atual. É verdade que em meninos teríamos morrido se a mãe nos tivesse deixado, mas o mais provável é que, quando adultos, somos perfeitamente capazes de atender às nossas próprias necessidades de sobrevivência. Ao pôr a descoberto estes medos ocultos e não resolvidos, as provas e tribulações na Casa 8, ajuda-nos a deixar atrás atitudes que, por obsoletas, nos estorvam. Nem todo o companheiro (a) é nosso (a) mãe.
Também dos nossos medos irracionais, é possível que uma boa proporção da indignação e da cólera que nas ocasiões sentimos, e que descarregamos sobre o nosso companheiro ou companheira, se pode rastrear retrospetivamente na infância e na meninice. As crianças não são pura doçura, sentimentalismo e claridade. A obra da psicóloga Melanie Klein revelou outro aspeto da natureza do bebé. Devido ao seu extremo desamparo, o menino pequeno experimenta uma frustração enorme quando a mãe não entende nem satisfaz as suas necessidades. Nem sequer a mais hábil das mães pode interpretar sempre e com precisão o que é que reclamam os berreiros de um bebé, e a insatisfação do menino estala invariavelmente em violenta hostilidade. Como as primeiras vivências deixam uma marca tão profunda, todos levamos dentro de nós um "bebé raivoso". Quando o nosso companheiro (a) nos frustra de alguma maneira, é possível que o "choro" volte a despertar.
Como Perséfone sequestrada no mundo subterrâneo, nas relações muito intensas todos descemos às profundezas do nosso ser para ali descobrir a nossa herança instintiva primitiva: a inveja, a cobiça, os ciúmes, a raiva, as paixões que mexem, a necessidade de poder e de domínio e também as fantasias destrutivas que podem estar emboscadas e ocultas atrás da mais gentil fachada. Somente se aceitarmos a "fera" que há em nós teremos a possibilidade de transformá-la. Não podemos mudar nada sem saber que está ali. Não podemos transformar algo que condenamos. O aspeto mais escuro da nossa natureza deve ser trazido à luz antes de nos podermos limpar, regenerar ou voltar a nascer.
É provável que antes, no empenho de negar esse aspeto mais obscuro, tenhamos sufocado um vasto caudal de energia psíquica tentado reconhecer o nosso estado de espírito vingativo, a nossa crueldade, ou a nossa raiva, não significa necessariamente uma catarse ou uma atuação indiscriminada destas emoções. Um comportamento assim, comporta um gasto de energia que possivelmente destrói muito mais do que queremos. A melhor chave reside em reconhecer e assumir esses sentimentos explosivos, ao mesmo tempo que os contém. Ao voltar a conectar com a fonte de energia que se expressa como instintos ultrajados e encontrar apoio interno nela, terminaremos por libertar essa energia de forma em que se viu presa. Assim desviada é possível voltar a integrá-la conscientemente e de maneira mais produtiva na psique, ou canalizá-la bem para saídas construtivas. Cozinhar a fogo brando num caldo de emoções primárias até que elas estejam no ponto para mudar, não é muito agradável mas, ninguém diz que o trabalho que nos propõe a Casa 8 seja fácil.
Esta casa oferece-nos a oportunidade de reanalisar a ligação existente entre os problemas do relacionamento atual e os que no começo da vida se levantaram com ambos os pais. Com base na nossa perceção do meio ambiente, enquanto somos crianças, formamos opiniões sobre o tipo de pessoa que somos e como é para nós a vida "lá fora". Estas crenças ou "guiões" estão operando por vezes inconscientemente, até à idade adulta. A menina que acreditava que "o papá era um canalha" torna-se uma mulher que leva profundamente arreigado o sentimento de que "todos os homens são canalhas". Devido às leis do determinismo psíquico, temos uma capacidade misteriosa e quase assustadora de atrair para a nossa vida precisamente as pessoas e as situações que servem de base a estes pressupostos. Se não fosse assim, provavelmente não o faríamos e perceberíamos. Em qualquer caso, o objetivo de um complexo é demonstrar a sua própria verdade.
Na Casa 8 escavam-se as ruinas e os escombros da infância. Os nossos enunciados vitais mais problemáticos e mais profundamente existenciais são descobertos, "ao vivo e a cores", nas crises das nossas atuais relações. Com a maturidade e a prudência adicionais que nos concedem os anos vividos, podemos "limpar" em parte os resíduos do passado que coloriram e obscureceram a nossa visão da vida, de nós mesmos e dos outros. O dom da Casa 8 é um assunto de autoconhecimento e autocontrolo, que nos deixa livres para continuar a nossa viagem renovados e livres de bagagem desnecessária.
No caso de fracassarem as nossas tentativas de mudar e desenvolver as voláteis questões que suscita a Casa 8, podemos olhar os posicionamentos que nela existem como pontos de referência para se ter uma ideia de como poderia ser um processo de divórcio. Os aspetos planetários difíceis nesta Casa 8 anunciam separações traumáticas e acordos de divórcio complicados. Os dois "bebés raivosos" e os seus advogados são responsáveis por travar a batalha no tribunal.
Na Casa 8 descrevem-se todos os níveis de experiência compartilhada. além do domínio das finanças conjuntas e da fusão de dois indivíduos em um, esta casa tem uma orientação ecológica mais ampla. Nós todos temos que compartilhar o nosso Planeta e os seus recursos. O capitalista superdinâmico que arrasa indiscriminadamente com bosques sem pensar em mais nada a não ser no seu benefício, não tendo consideração alguma pelos habitantes da floresta, além de estar a privar o seu semelhante de um ambiente natural, fonte de beleza e inspiração. A sensibilidade de uma pessoa a estes problemas é refletida pelos posicionamentos na Casa 8.
A casa denota também a nossa relação com que os filósofos exotéricos chamam o "Plano Astral". Uma emoção forte, mas não necessariamente visível, trespassa de todas as maneiras a atmosfera que nos rodeia. O plano astral é aquele nível da existência onde se encontram e circulam emoções e sentimentos aparentemente intangíveis, mas poderosos. Os leitores de mentalidade mais racionalista talvez duvidem da credibilidade de algo que não se pode ver nem medir. E no entanto, a maioria de nós já teve a experiência de entrar na casa de uma pessoa e sentir imediatamente algo desagradável, como que uma angústia, enquanto que na casa de outra pessoa nos sentimos em alta e cheios de bem-estar. Os planetas e signos na Casa 8 mostram o tipo particular de energias que esvoaçam no ambiente astral às quais somos mais sensíveis. Alguém com Marte na Casa 8 captará a raiva que flutua no ar com mais facilidade que quem tenha na mesma casa Vénus; esta última percebe mais rapidamente quando é o amor o que está no ar. Neste aspeto a Casa 8 é semelhante às outras casas de água - a quatro e a doze. Na Casa 8 mostram-se as experiencias da esfera psíquica ou oculto, o mesmo que o grau de interesse ou de fascinação que sentimos  pelo que está oculto, pelo que é misterioso ou se encontra debaixo do nível superficial da existência.
A morte tal como a demonstram os posicionamentos da Casa 8, pode tornar-se em sentido literal, como a maneira ou as circunstâncias atenuantes da nossa morte física. Saturno nesta casa pode mostrar-se relutante em morrer, temeroso do que haja para além da existência corpórea. Neptuno pode morrer do resultado de drogas, por intoxicação alcoólica ou afogamento, ou ainda desprendendo-se da vida gradualmente, em estado de coma. Úrano pode pôr fim a tudo de forma súbita.
No entanto, no espaço de uma vida podemos experimentar muitas mortes psicológicas diferentes. Se temos estado obtendo o nosso sentimento de identidade de uma relação e esta se acaba, equivale a uma espécie de morte do que fomos. Da mesma forma se o nosso sentimento de vitalidade ou de significado na vida vem de certa atividade e devemos renunciar a ela, também isso é uma morte da maneira em como nos conhecíamos. Ao morrer a infância, nasce a adolescência. A adolescência extingue-se e essa morte remete-nos para a idade adulta. Um nascimento requer uma morte e uma morte um nascimento. Os signos e planetas da Casa 8 indicam a forma como lidamos com estas fases de transição. É frequente que os indivíduos com forte posicionamento na Casa 8 sintam que a sua vida é um livro com muitos capítulos diferentes, ou uma longa peça de teatro com mudanças bruscas de cenário. É possível que essa série de terminações e novos começos caia sobre nós mas, também que assumamos um papel mais ativo naquilo que nos sucede, destruindo as antigas estruturas para dar lugar ao surgimento de outras coisas.
Na mitologia os deuses criam o mundo, decidem que não gostam, destroem o que construíram e criam outro. A morte é um processo contínuo na natureza. Esta é também a imagem do deus que morre e ressuscita, que destruído de uma forma, reaparece depois transformado.
A Cristo cruxificam-no mas depois ressuscita. Dionísios esquartejam-no, mas Atena, deusa da Sabedoria resgata o seu coração e o deus volta a nascer. É provável que, como Fénix, nos encontremos temporariamente reduzidos a cinzas, mas podemos voltar e levantarmo-nos delas renovados. A fórmula pode ser destruída mas a essência permanece pronta para voltar a florescer novamente de alguma outra maneira.
Goethe, o poeta alemão escreveu:
"Enquanto não morreres e te voltes a levantar de novo/ És um estranho na terra escura".
Sabe-o bem, todo aquela que tenha sobrevivido aos traumas e tensões da casa 8.


   

5 comentários:

  1. Grata por toda esta informação. :)

    Beijinhos

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  2. Olá Joana,

    Grata sou eu por me ter lido.

    Beijinhos

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  3. Adelaide,

    Estou daqui a bater palmas...Muito, muito bom!
    E que bom que seria se cada um, como eu estou a fazer, pegasse neste seu artigo, confrontasse com o mapa astral e começasse a ver para resolver. Nada fácil esta 8 :)
    Obrigado.
    Um beijinho

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  4. IdoMind,

    O mapa Natal é para isso mesmo, para nos conhecermos e trabalharmos os nossos problemas. No entanto, se os conseguirmos encontrar e enfrentar iremos conseguir.Pode até ser que não o consigamos na totalidade mas pelo menos tentámos.

    Beijinho

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  5. Ando pesquisando mais sobre astrologia e me deparei com essa vasa karmica tenho nela Saturno, Urano e Netuno, devo dizer q me assusta um pouco essa configuração. Teria algum conselho pra mim?

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